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Sangue e verde

 

Em memória e lembrança dos espíritos altivos e imbatíveis de Dom e Bruno… Já filhos queridos e tenros da Floresta

A Amazônia… Vocês não sabem o que é a Amazônia!

É mais, bem mais do que uma floresta e seus rios; mais do que imenso apelo e potência ecológica.

A Amazônia é, sobretudo, uma gente milenar e ancestral; são seus ritos, suas tradições, culturas e formas superiores de se integrar a essa mesma natureza.

Esse dispositivo de integração a imensa natureza que o envolve, revolve e é claro, desenvolvido secularmente é do mesmo modo, o essencial, a sabedoria, o “ludens” da própria natureza dessas pessoas.

É uma intimidade, uma subjetividade, um “modus” muito particular e específico de ser/estar no e com o mundo.

No misterioso e fantástico universo coeso e integrado da Amazônia não há a natureza e o homem; essa divisão estúpida e absurda, de fato, não faz o menor sentido; essa forma segmentada, compartimentada e cartesiana de compreensão é descabida e radicalmente imprópria.

Ali onde o vento é deus, onde as águas são divindades e o esturro de uma onça é o anúncio da chegada de uma entidade das profundas entranhas das matas o homem é a natureza e a natureza é o homem.

Não há um e outro; o um é o UM; junto, pleno, coeso, integrado e ativo.

Como nós, os “caraíbas” dessa trágica e deletéria normose sócio-urbana e terceiromundista iremos compreender, traduzir essa lógica inteira, inteiriça, total e totalizante?

É tarefa espiritual e intelectual das mais complexas e difíceis para não dizer… Impossível!

Ali, as pedras assoviam, as árvores conversam, o cheiro da seiva abre portais transcendentais; as raízes curam ferimentos, trazem alegrias, fertilizam as fêmeas e viram comida.

Não há a propriedade!

Como alguém pode ser dono do rio? Da cachoeira ou da praia? Acaso alguém pode se arvorar como dono do sol, da lua ou do sagrado solo de Tupã?

Na oca onde a tribo se reúne… Todos gargalham do povo branco e que  – Valha-me Deus! – se diz dono de tudo… Do ar, do fogo, da chuva que cai e de tudo o que há!

Resta o riso, a piada e a troça!

A Amazonia… Ora, é um estranho e maravilhoso mundo e que desconhecemos em absoluto e…

…Como tinha de ser, ante ao desconhecido, àquilo que não identificamos e entendemos tendemos a ser rudes, agressivos, brutais.

Não por menos… Vem do caos do nosso mundo dos “brancos”, dos não-índios a ira mais rasgada e furiosa contra essa gente desde a chegada das caravelas lusitanas às praias de Vera Cruz.

Mas, na sabedoria da mais longeva guerra da história humana, afinal são mais de quinhentos anos de lutas, pelejas e resistências… Os originais filhos do Brasil saberão lutar, saberão vencer.

Agora… Os espíritos de Dom e Bruno correm livres, vigorosos e eternos nas sendas do tempo, nas energias do melhor desse povo… São Amazônia! Por todo o sempre…

E uma nova e definitiva luta começa!

 

Ângelo Cavalcante – Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara.

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